Duas Imagens Bíblicas: Babel ou Jerusalém? A Escolha que Define o Futuro
Parte 3 – Depois de apresentar os desafios da inteligência artificial e das transformações do nosso tempo, o Papa Leão XIV faz algo surpreendente.
Em vez de começar por máquinas, algoritmos ou tecnologias, ele abre a Bíblia.
Para iluminar os desafios do presente, ele recorre a duas imagens antigas, mas profundamente atuais: a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém conduzida por Neemias.
Para o Papa, estas duas histórias não pertencem apenas ao passado.
Elas representam duas formas de construir o futuro.
O que diz o Papa
Leão XIV escreve:
“A primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém.”
Esta frase é uma das mais importantes de toda a introdução da Magnifica Humanitas.
O Papa explica que Babel foi uma obra grandiosa do ponto de vista humano.
Havia uma única língua.
Uma única direção.
Uma única tecnologia.
Um único projeto.
Mas existia um problema.
A construção foi realizada sem referência a Deus.
A unidade transformou-se em uniformidade.
O desejo de comunhão transformou-se em desejo de poder.
E a busca pela grandeza acabou produzindo divisão.
Por outro lado, Neemias encontra Jerusalém destruída.
As muralhas estão em ruínas.
O povo regressa do exílio.
Antes de agir, Neemias reza.
Depois escuta.
Observa.
Mobiliza toda a comunidade.
Cada família participa da reconstrução.
A cidade renasce não pela força de uma única pessoa, mas pela responsabilidade partilhada de todo o povo.
Segundo o Papa, Jerusalém reencontra uma linguagem comum não através da uniformidade, mas através da comunhão.
O que isso significa
O Papa não está simplesmente comparando duas histórias bíblicas.
Ele está propondo dois modelos de sociedade.
Babel representa a tentação de construir um mundo baseado apenas no poder humano.
É a ilusão de que a técnica, a economia ou a ciência podem resolver tudo sozinhas.
É a crença de que o progresso basta a si mesmo.
É o risco de sacrificar pessoas em nome da eficiência.
Jerusalém representa outra lógica.
A lógica da colaboração.
Da responsabilidade.
Da escuta.
Da participação.
Da confiança em Deus.
Ao utilizar estas duas imagens, Leão XIV mostra que o verdadeiro debate sobre a inteligência artificial não é tecnológico.
É humano.
A pergunta não é apenas:
“Que máquinas estamos construindo?”
A pergunta é:
“Que tipo de sociedade estamos construindo através delas?”
A tecnologia não é neutra
Outro ponto importante da reflexão do Papa aparece quando ele afirma que a tecnologia pode produzir grandes benefícios.
Ela pode:
• curar doenças;
• educar;
• conectar pessoas;
• proteger a Casa Comum;
• facilitar a comunicação.
Mas também pode:
• ampliar desigualdades;
• gerar novas formas de exclusão;
• favorecer mecanismos de controle;
• reduzir pessoas a números e dados.
Por isso, Leão XIV faz uma observação importante.
A tecnologia não é um mal.
Mas também não é totalmente neutra.
Ela possui o rosto daqueles que a criam, financiam, regulam e utilizam.
Por trás de cada sistema tecnológico existem escolhas humanas.
Existem valores.
Existem interesses.
Existem decisões morais.
É por isso que a questão central não está nas máquinas.
Está nas pessoas.
O que isso muda na nossa vida
Talvez seja fácil pensar que estas questões dizem respeito apenas aos governos, às grandes empresas de tecnologia ou aos especialistas.
Mas o Papa convida cada pessoa a fazer um exame de consciência.
Como utilizamos as tecnologias que fazem parte do nosso dia a dia?
As redes sociais ajudam-nos a construir comunhão ou alimentam divisões?
A comunicação digital aproxima-nos dos outros ou torna-nos mais isolados?
Estamos aprendendo a escutar quem pensa diferente ou procuramos apenas quem confirma as nossas opiniões?
Estamos usando a tecnologia para servir as pessoas ou para tirar proveito delas?
Estas perguntas não dizem respeito apenas ao futuro da inteligência artificial.
Dizem respeito ao futuro da convivência humana.
Uma advertência do Papa
Leão XIV alerta contra aquilo que chama de “síndrome de Babel”.
Ela aparece quando:
• o lucro vale mais do que a pessoa;
• a eficiência vale mais do que a dignidade;
• as diferenças são vistas como problemas;
• tudo é reduzido a desempenho, produtividade e resultados.
Neste cenário, o ser humano corre o risco de ser transformado em objeto.
A tecnologia continua avançando.
Mas a humanidade começa a perder algo essencial.
O Caminho de Jerusalém
Diante deste risco, o Papa propõe o caminho de Neemias.
Reconstruir.
Escutar.
Cooperar.
Partilhar responsabilidades.
Valorizar a diversidade.
Promover o diálogo.
Colocar Deus no centro.
Para os cristãos, este caminho encontra sua expressão mais profunda na fraternidade, na sinodalidade e no compromisso com o bem comum.
Não se trata de rejeitar a tecnologia.
Trata-se de orientá-la para o serviço da pessoa humana.
Para refletir
A tecnologia que utilizamos todos os dias está ajudando a construir mais fraternidade, mais justiça e mais comunhão?
Ou estamos, sem perceber, ajudando a levantar uma nova Torre de Babel?
Na próxima parte
Veremos como o Papa desenvolve a ideia de “Construir no Bem” e por que o progresso só é verdadeiramente humano quando está a serviço da dignidade da pessoa e do bem comum.








